Imagine perceber que uma grande parte do nosso sofrimento não nasce apenas daquilo que perdemos, mas principalmente daquilo que ainda desejamos possuir.
Quando queremos alguma coisa que não temos, sentimos a falta. A ausência gera ansiedade, expectativa e inquietação. Então, quando finalmente conseguimos aquilo que tanto desejávamos, experimentamos uma sensação de prazer e alívio. Porém, essa sensação costuma durar pouco. Depois de algum tempo, aquilo que conquistamos deixa de parecer extraordinário e passa a fazer parte da nossa rotina.
Então surge um novo desejo.
É como correr atrás de uma linha de chegada que se afasta cada vez que nos aproximamos dela.
Essa questão ocupou um lugar central no pensamento de Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século XIX. Para ele, o sofrimento humano não pode ser explicado apenas pelas dificuldades externas da vida. Pobreza, perdas, fracassos e decepções certamente podem nos fazer sofrer, mas existe algo ainda mais profundo por trás da nossa inquietação.
Esse elemento seria o desejo incessante que movimenta a existência.
Schopenhauer nasceu em 1788 e, desde cedo, demonstrou grande interesse pelas questões fundamentais da existência. Enquanto muitos pensadores de sua época depositavam grande confiança na razão e na capacidade humana de compreender o mundo, Schopenhauer desenvolveu uma visão muito mais pessimista.
Sua principal obra, O Mundo como Vontade e Representação, publicada no início do século XIX, apresenta uma das ideias fundamentais de sua filosofia: aquilo que percebemos como realidade possui uma dimensão aparente, enquanto por trás dela existe uma força mais profunda, que ele chamou de Vontade.
Essa Vontade não deve ser confundida simplesmente com a capacidade consciente de escolher alguma coisa.
Ela representa uma força irracional, espontânea e incessante, presente na própria natureza. Ela aparece no instinto de sobrevivência, na reprodução, na busca por alimento, na competição e no impulso dos seres vivos de continuar existindo.
Nos seres humanos, essa força aparece através dos desejos, ambições, paixões, necessidades e impulsos.
Costumamos acreditar que somos seres essencialmente racionais. Imaginamos que primeiro pensamos cuidadosamente e depois decidimos o que queremos. Schopenhauer inverte essa lógica.
Para ele, muitas vezes desejamos primeiro e somente depois utilizamos nossa inteligência para encontrar argumentos que justifiquem aquilo que já queremos.
Nossa razão pode funcionar menos como uma comandante e mais como uma ferramenta utilizada pelos nossos desejos.
É justamente aí que surge o problema.
O desejo nasce de uma sensação de falta. Quando desejamos alguma coisa, estamos dizendo, de certa maneira, que o presente não é suficiente. Existe algo que acreditamos precisar para finalmente nos sentirmos completos.
Enquanto não conseguimos aquilo, sofremos pela ausência.
Quando conseguimos, sentimos alívio.
Mas o alívio não permanece para sempre.
Pense em alguém que passa meses desejando comprar determinado objeto. A pessoa pesquisa, compara preços, imagina como será sua vida depois da compra e começa a acreditar que finalmente encontrou aquilo que estava faltando.
Quando finalmente consegue comprar o objeto, sente entusiasmo. Durante algum tempo, existe uma verdadeira sensação de conquista.
Depois, porém, o objeto passa a fazer parte da vida cotidiana.
Aquilo que parecia extraordinário torna-se normal.
E então surge outro desejo.
Esse processo, segundo Schopenhauer, não é simplesmente uma falha de caráter ou uma fraqueza individual. Ele faz parte da própria estrutura da existência humana.
A vontade não encontra um ponto definitivo de descanso.
Quando uma necessidade é satisfeita, outra aparece.
Quando alcançamos determinado objetivo, nossa mente começa a procurar o próximo.
Por isso, muitas das coisas que chamamos de felicidade podem ser entendidas como momentos de interrupção de um sofrimento anterior. Sentimos prazer não apenas porque conquistamos algo, mas também porque deixamos de sentir a tensão provocada pela falta.
Isso muda profundamente a maneira como podemos compreender a felicidade.
Se acreditarmos que seremos felizes somente quando conseguirmos aquilo que desejamos, estaremos sempre colocando nossa tranquilidade em algum momento futuro.
Primeiro pensamos que precisamos conseguir determinada coisa.
Depois acreditamos que precisamos de outra.
E assim continuamos.
Schopenhauer descreveu essa condição através de uma imagem bastante conhecida: a vida humana oscila entre a dor e o tédio.
Quando queremos intensamente alguma coisa e não conseguimos, sentimos sofrimento.
Quando finalmente conseguimos satisfazer nossos desejos e deixamos de ter algo importante para perseguir, podemos experimentar o vazio e o tédio.
Assim, podemos sofrer tanto pela falta quanto pelo excesso de satisfação.
Imagine alguém que passa semanas trabalhando e sonhando com alguns dias de descanso. Essa pessoa acredita que, quando finalmente estiver livre das obrigações, encontrará paz.
Mas, depois de algum tempo sem compromissos, pode começar a sentir inquietação.
Procura distrações.
Inventa atividades.
Busca novidades.
Cria novos objetivos.
Aquilo que parecia liberdade começa a parecer vazio.
Isso revela uma contradição interessante: muitas vezes sofremos porque a vida exige demais de nós, mas também podemos sofrer quando ela deixa de exigir alguma coisa.
A vontade está constantemente procurando um novo objeto.
Quando não encontra nenhum, podemos sentir o desconforto provocado pelo próprio vazio.
Existe ainda outro problema: viver permanentemente voltado para o futuro.
Podemos passar anos acreditando que a felicidade verdadeira começará depois de alguma conquista.
Quando somos jovens, imaginamos que seremos felizes quando crescermos.
Depois pensamos que encontraremos tranquilidade quando terminarmos os estudos.
Mais tarde acreditamos que a realização virá com um emprego melhor, uma promoção, uma casa, dinheiro, reconhecimento ou um relacionamento ideal.
O problema não está necessariamente em estabelecer objetivos.
O problema aparece quando transformamos todos os momentos presentes em simples preparação para uma felicidade futura.
Nesse caso, nunca estamos verdadeiramente vivendo o presente.
Estamos apenas atravessando o presente em direção a alguma coisa que ainda não existe.
E, quando finalmente chegamos lá, descobrimos que a satisfação não é tão duradoura quanto imaginávamos.
Então criamos outro objetivo.
Outra expectativa.
Outro desejo.
O presente se transforma em um corredor que atravessamos rapidamente, sempre olhando para a próxima porta.
Schopenhauer também aplicou sua reflexão ao amor.
Para ele, a paixão amorosa pode ser influenciada por forças muito mais profundas do que aquelas que percebemos conscientemente. Muitas vezes acreditamos estar escolhendo livremente uma pessoa, quando também existem impulsos ligados à própria continuidade da vida e da espécie.
Isso não significa que todo amor seja falso ou que os sentimentos não tenham valor.
A questão é que podemos idealizar uma pessoa e acreditar que ela será responsável por nossa felicidade.
Criamos uma imagem em nossa mente.
Projetamos expectativas.
Imaginamos como será nossa vida ao lado daquela pessoa.
E, algumas vezes, acabamos amando não apenas quem ela realmente é, mas aquilo que imaginamos que ela poderá representar em nossa vida.
Quando o relacionamento acontece, descobrimos que a realidade é diferente da fantasia.
A convivência revela características que a paixão havia escondido.
A pessoa real nunca consegue corresponder perfeitamente à imagem criada pela nossa imaginação.
Isso nos leva a uma pergunta importante:
Será que algumas vezes não nos apaixonamos apenas por uma pessoa, mas pela promessa de felicidade que acreditamos encontrar nela?
Se o desejo faz parte da nossa natureza, então estaríamos condenados a sofrer para sempre?
Schopenhauer não acreditava que bastaria pensar positivamente ou conquistar mais coisas para resolver o problema.
Sua filosofia aponta para outra possibilidade: diminuir, ainda que temporariamente, o domínio da vontade sobre nossa consciência.
Uma dessas possibilidades aparece na contemplação estética.
Imagine estar diante de uma paisagem extraordinária.
Durante alguns instantes, você deixa de pensar nas contas, nos problemas, nas obrigações e nas coisas que ainda precisa conquistar.
Você não quer possuir a paisagem.
Não deseja transformá-la em alguma coisa útil.
Não está tentando obter vantagem.
Apenas observa.
Nesse momento, a mente deixa de estar completamente dominada pelas necessidades pessoais.
A atenção se volta para aquilo que está diante de nós.
Por alguns instantes, o fluxo constante de desejos perde força.
A contemplação pode nos proporcionar uma experiência diferente da existência: um momento em que não precisamos conquistar nada.
Outro aspecto fundamental do pensamento de Schopenhauer é a compaixão.
Para ele, uma verdadeira ação moral não nasce apenas do medo de punição, do desejo de reconhecimento ou da obediência a regras.
Ela nasce principalmente da capacidade de reconhecer o sofrimento do outro.
Quando percebemos verdadeiramente a dor de outra pessoa, deixamos temporariamente de colocar nossos próprios interesses no centro de tudo.
Passamos a compreender que aquela pessoa também enfrenta perdas, medos, frustrações, desejos e dificuldades.
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