sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A internet é mortal

 Você conseguiria identificar alguém capaz de contribuir para a morte de milhões de pessoas? Talvez a imagem que venha à sua cabeça seja a de alguém extremamente cruel, ameaçador e cuja aparência revele, de alguma maneira, a brutalidade de seus atos. Era algo parecido com isso que muitas pessoas esperavam encontrar no julgamento de Adolf Eichmann, em Jerusalém.


Entretanto, o homem sentado dentro da cabine de vidro blindado parecia muito mais um funcionário comum do que um dos responsáveis por crimes de proporções gigantescas. Eichmann falava de maneira tranquila, repetindo frases prontas, slogans do regime e justificativas burocráticas. Era difícil encontrar em suas palavras algo que realmente parecesse fruto de uma reflexão pessoal. Dava a impressão de que, depois de tantos anos simplesmente cumprindo ordens, ele havia perdido a capacidade de pensar além delas.


Hannah Arendt acompanhava o julgamento e chegou a uma conclusão que incomodou muita gente. O que mais chamou sua atenção em Eichmann não foi somente a dimensão de seus crimes, mas a aparente ausência de reflexão ao falar sobre aquilo que havia feito.


Ele sabia obedecer, organizar e cumprir tarefas. O que parecia faltar era a capacidade de interromper o processo e fazer perguntas básicas:


“Por que estou fazendo isso? Isso é correto? Até onde essa ordem pode me levar?”


Percebe o perigo?


Uma pessoa pode ser educada, competente, eficiente e até admirada pelos outros enquanto repete ideias que nunca se preocupou em questionar. Pode passar décadas obedecendo às regras de um sistema sem perceber que, pouco a pouco, deixou esse sistema tomar o lugar de seu próprio julgamento.


Arendt chamou atenção justamente para esse risco: a ausência de pensamento crítico pode deixar de ser um problema individual e se transformar em um fenômeno coletivo.


Décadas depois, o historiador econômico italiano Carlo Cipolla resolveu analisar um assunto que normalmente tratamos como brincadeira: a estupidez humana.


Para Cipolla, porém, a estupidez não era apenas uma característica engraçada de determinadas pessoas. Ela poderia funcionar como uma verdadeira força social, capaz de produzir consequências enormes. Em determinadas circunstâncias, poderia ser ainda mais perigosa do que a maldade, justamente porque seus efeitos são difíceis de prever.


Em seu famoso ensaio, Cipolla apresentou uma divisão das pessoas em quatro grandes categorias.


A intenção não era apenas identificar aquele colega de trabalho que toma decisões irritantes ou o familiar que parece sempre escolher o pior caminho. O objetivo era compreender o que acontece quando uma sociedade deixa de contar com pessoas dispostas a refletir antes de agir.


E existe uma ironia interessante nisso tudo.


Cipolla escreveu suas ideias muito antes de existirem redes sociais, smartphones e sistemas capazes de escrever, argumentar e responder perguntas por nós em questão de segundos.


Ele identificou um problema muito antes de termos ferramentas capazes de ampliá-lo dessa maneira.


O modelo de Cipolla começa com duas perguntas simples:


Sua ação beneficia você?


E ela também beneficia outras pessoas?


Dependendo das respostas, o comportamento poderia ser colocado em quatro categorias.


A primeira é a pessoa inteligente.


É aquela que consegue agir de forma que produz benefícios para si mesma e também para os outros. Ela encontra soluções, cria oportunidades, resolve problemas e melhora sua própria situação sem precisar prejudicar quem está ao redor.


Para Cipolla, esse tipo de pessoa possui enorme valor social. Boa parte das coisas que funcionam em uma sociedade depende de indivíduos capazes de agir dessa maneira.


A segunda categoria é o bandido.


Nesse caso, a pessoa obtém alguma vantagem enquanto outra sofre uma perda. Pode ser por meio de roubo, fraude, manipulação, exploração ou abuso de poder.


É um comportamento negativo, mas existe uma lógica por trás dele.


A pessoa prejudica alguém porque espera conseguir alguma coisa em troca.


E justamente por existir um objetivo, suas ações podem ser parcialmente previstas. Quando sabemos o que alguém deseja, conseguimos criar mecanismos para limitar esse comportamento: leis, contratos, sistemas de segurança e outras formas de proteção.


A terceira categoria é composta pelos chamados indefesos.

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